quinta-feira, 9 de julho de 2009

'Vamos se abraçar pessoal, porra!' - Falta uma parte para tornar real o virtual

Vou entrar em contra-senso daqui a pouco, já já vocês vão ver...
Hoje caí em um link* donde comecei a pensar sobre essa vontade do abraço, do toque real versus ao virtual. Somos seres sociais por natureza, e construímos nosso significado através da troca de significados entre o eu e o outro. Para isso já utilizamos o virtual há no mínimo uns 100 anos. Pensa comigo, o telegrama, a carta, o telefone, e até o sinal de fumaça (se é que isso funciona mesmo) nada mais são do que a constituição de símbolos de interação social; da mesma forma que o 1 e o 0 formam o conjunto binário da computação. Logo, o twitter que me desculpe, mas você não é lá nooossaaa A novidade. O virtual já faz parte da nossa interação social há um boom tempo, sem nem nos darmos conta.

Então, agora, a novidade mesmo, o grande big bang é a exponencialidade dessa comunicação toda. Essa web communications mediada por computadores e celulares é a meu ver a única promessa cumprida pela globalização, consenso de Washington e blá blá blá. Um mundo sem fronteiras, onde eu estou do ladinho de um chinês ou turco ou polinésio. E essa sensação de liberdade, melhor, esse poder subjetivo que a web nos dá é o que a tal propaganda de um cartão de crédito diz como 'não tem preço'. Mas antes de entrar numa análise harcore sócio política da coisa, vamos ao principal. A potencialidade que a web tem de nos fazermos humanos, e o medo de estarmos jogando isso pela janela.

Mantendo a premissa básica de que nos tornamos humanos nessa troca de subjetividades, historicamente essa construção se dava pela manutenção de laços via comunidade, família, e instituições como trabalho e igreja. Até ai beleza, mas convenhamos que isso delimitava nosso raio de ação. Mas eis que surgem em cena as ditas plataformas de interação social via web, fotolog, orkuts e assemelhados, twitter, blogs e num futuro próximo, porque não um novo Second Life em 3D? A comunicação se torna a essência da web; e não é a toa que a todas essas formas de comunicação chamamos de comunidades virtuais, da mesma maneira que as comunidades onde nossos pais e avós viviam no interior, e as tribos de nossos ancestrais, a comunidade é a base de sustentação de uma sociedade. E é aí que entra a web como uma ferramenta catalisadora de humanidade, ao potencializar 'n' vezes a nossa capacidade de construir novos laços sociais. Claro que assim como no mundo off line, no on também é feita uma seleção natural de quem temos mais afinidades. Jogando um pouco de matemática aqui, se numa comunidade tradicional encontramos 100 pessoas e destas 10 nos relacionamos com mais afinco, na web podemos encontrar 1.000 pessoas fácil fácil em curto espaço de tempo e quiçá destas tirar umas 20, 30, 40 (...) para nos relacionarmos. A possibilidade da escolha é exercida no seu ápice, e com esses via de regra acredito que n'algum momento estreitemos estes laços para fora da tela do computador ou do celular.

Entretanto, aquela frase lá de cima do título se encaixa agora, na problematização da coisa. O receio de que esta ordem dita pós moderna guie a construção destes laços via a coisificação do humano, nos transformando tão somente em mercadorias a serem consumidas em dado espaço de tempo via a instantaneabilidade do momento. Explico... tanto off quanto on line, parece que o humano se acostumou (sim, se acostumou) ao rápido, ao instantâneo e ao efêmero. Parece ser mais cômodo se ater ao superficial do que adentrar fundo a algo. Parece ser mais cômodo twittar 140 caracteres a elaborar um texto de 1000. Parece ser mais cômodo registrar 1000 amigos no orkut e conhecer 5 do que manter 200 e participar da vida de 30. Só que nesse caso, quantidade não é sinônimo de qualidade. O ser 'pop' na web trás consigo o risco da dependência da tecnologia e de números cada vez mais altos de contatos onde perdemos aquilo que ela tanto pode nos ajudar a aprimorar, nosso lado humano.

Essa 'mania' de pré-bitolação imposta pelo efêmero me preocupa, pois temos acesso a tudo e no fundo sabemos o que? Um pouco de nada! Temos 1.000 amigos e no fundo com quantos podemos realmente constituir uma troca mais significativa? Alguns! Meu receio é o que vem pela frente, nessa geração atual, a geração Z, tão acostumada a facilidade de um contato, de uma informação, que vem fácil e vai fácil. A priori o on e o off line se trespassam num emaranhado de teias, nada é substancialmente virtual. Chega um momento em que o virtual entra dentro de nossa realidade pois querendo ou não somos de carne e osso, precisamos do tato, do olhar, do olfato. Estas experiências sensoriais nos são necessárias pois são nelas que concretizamos a humanização de nossos bytes. E perder tudo isso num possível futuro marcado tão somente por scraps, twittadas e coments alheios e superficiais me soa como algo apocalíptico. Porque o LCD não substitui um olhar e o calor de um abraço.


Agora, só pra explicar a contradição, a que eu prefiro chamar de sinal de esperança, tive acesso ao link da frase do título através do twitter. Nada está perdido...ainda é possível nos aprofundarmos mais mesmo em 140 caracteres.